Prefeitura banca futebol milionário enquanto filas da saúde se acumulam em Montes Claros

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Maicon Tavares

Montes Claros começa 2025 sob um clima de indignação crescente. Em meio a filas intermináveis na saúde pública, falta de exames básicos, cirurgias eletivas represadas e pacientes aguardando meses por atendimento especializado, o Município decidiu investir milhões de reais em um clube de futebol profissional e em obras questionadas em equipamento esportivo que, segundo relatos, estava em plenas condições de uso.

No dia 18 de dezembro de 2024, o Executivo municipal encaminhou à Câmara um projeto de lei autorizando o repasse de R$ 2 milhões ao North Esporte Clube, além da cessão gratuita do Estádio Municipal Juvêncio Augusto Soares para uso e exploração econômica pelo time. A proposta foi aprovada pelos vereadores e sancionada pelo prefeito Guilherme Augusto Guimarães Oliveira.

O texto da lei deixa claro que o patrocínio será pago em três parcelas ao longo de 2026, sob a justificativa de promoção institucional do Município, fortalecimento do esporte, estímulo ao turismo e geração de visibilidade para Montes Claros no cenário estadual. Na prática, porém, o que se vê é dinheiro público sendo direcionado a uma entidade privada, enquanto serviços essenciais seguem colapsados.

O repasse de R$ 2 milhões não veio sozinho. Paralelamente, o Município desembolsou mais de R$ 3 milhões na reforma do Campo João Botelho, obra realizada para atender exigências da Federação Mineira de Futebol. O ponto que revolta moradores é que o campo, segundo usuários frequentes, não apresentava problemas estruturais que justificassem tamanho investimento. Ainda assim, recursos vultosos foram aplicados para adequar o espaço às demandas do futebol profissional.

Enquanto isso, a realidade da saúde pública é outra. Pacientes aguardam por exames de imagem, consultas com especialistas, procedimentos cirúrgicos e até atendimentos considerados básicos pelo SUS. Em muitos casos, não há sequer previsão de quando o serviço será realizado. A pergunta que ecoa entre a população é inevitável: quantas cirurgias poderiam ter sido feitas com os valores destinados ao futebol?

A lei aprovada autoriza, além do patrocínio, a cessão gratuita do estádio ao clube, permitindo que o North explore economicamente ingressos, bares, lanchonetes, camarotes, publicidade e demais espaços comerciais. Toda a arrecadação ficará com o clube, sem obrigação de repasse direto ao Município. Ao poder público cabem os investimentos, a reforma e o patrocínio; ao clube, os lucros.

O Executivo sustenta que tudo está dentro da legalidade, cita a Lei de Responsabilidade Fiscal, prevê prestação de contas e afirma que o investimento terá retorno social e institucional. Legalidade, porém, não tem sido suficiente para conter a insatisfação popular. Para muitos moradores, o debate não é jurídico, mas moral e político. Trata-se de prioridade.

A Câmara Municipal aprovou o projeto sem grande resistência. Pouco se discutiu publicamente sobre alternativas de destinação dos recursos ou sobre o impacto direto dessa escolha na vida de quem depende exclusivamente da rede pública de saúde. Agora, o desgaste começa a aparecer, principalmente nas redes sociais e nas conversas cotidianas de quem enfrenta a dura rotina das filas do SUS.

O futebol profissional entra em campo com patrocínio garantido, estádio reformado e estrutura pública à disposição. Já o cidadão comum continua aguardando atendimento, muitas vezes sem resposta e sem esperança de solução a curto prazo.

Em Montes Claros, o apito inicial já soou. Resta saber de que lado o dinheiro público está jogando.

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