Em Montes Claros, cidade onde a política raramente se move sem cálculo e memória, um vereador começa a deslocar peças com ambição pouco disfarçada. Trata-se de Igor Dias, que, ao anunciar sua pré-candidatura a deputado estadual, deixa de ser apenas mais um nome na Câmara para se insinuar como projeto, e aposta, de um grupo que há tempos busca reorganizar forças no Norte de Minas.
Quarto vereador mais votado em 2024, à época pelo PRD, Igor construiu sua trajetória longe dos holofotes estridentes, mas próximo dos bastidores onde, de fato, se decide o rumo das alianças. Professor e advogado, já transitou por funções estratégicas nas administrações de Tadeu Leite e do saudoso Humberto Souto, acumulando experiência que o credencia não apenas como parlamentar, mas como operador político.
Agora, em seu segundo mandato, protagoniza um movimento que diz mais do que uma simples troca de legenda. Ao deixar o PRD, ligado a Fred Costa, e filiar-se ao PSDB sob a órbita de Aécio Neves, Igor não apenas muda de partido, reposiciona-se. Passa a integrar um projeto maior, com acesso a recursos, estrutura e, sobretudo, a um plano: viabilizar um nome competitivo para a Assembleia de Minas em 2026 e, mais adiante, para o comando do Executivo municipal.
Mas não é apenas na engenharia partidária que Igor se move. No plenário da Câmara, tornou-se o primeiro vereador a confrontar de forma sistemática a atual gestão de Guilherme Guimarães (União Brasil). Discursos incisivos, cobranças públicas e críticas direcionadas a secretários municipais passaram a marcar sua atuação.
O ponto de inflexão veio em 2025, quando um episódio no Ginásio Ana Lopes expôs o conflito que até então se desenhava nos bastidores. Ali, diante de testemunhas, o vereador protagonizou um embate direto com o vice-prefeito Otávio Rocha (PP). Relatos dão conta de uma frase carregada de tensão, a de que Igor teria encontrado “o pior inimigo de sua vida”. A resposta não tardou. Dias depois, da tribuna, Igor devolveu em tom igualmente firme: não teme intimidações e, se necessário, enfrentará qualquer adversário.
Desde então, o ambiente político local perdeu qualquer verniz de cordialidade.
Nos bastidores, sua ascensão atende a um desejo antigo do PSDB mineiro: reconstruir presença consistente na principal cidade do Norte do estado. Há, também, um componente de ressentimento, alimentado pelas críticas feitas por Otávio Rocha à legenda e a Aécio Neves durante o último ciclo eleitoral. Igor surge, assim, como instrumento e símbolo dessa rearticulação.
A estratégia é clara, ainda que não declarada em voz alta: fortalecer seu nome em 2026, projetá-lo regionalmente e, em 2028, apresentá-lo como alternativa viável à sucessão municipal. Não apenas um candidato, mas um polo de oposição estruturado.
E, nesse tabuleiro, Igor não joga sozinho. A filiação do comunicador Dézim do Povo ao PSDB adiciona um elemento popular e combativo à equação. Hoje uma das vozes mais estridentes contra a administração municipal, Dézim também mira a Assembleia Legislativa, ainda que seu movimento possa ser lido como etapa inicial de um projeto menor, com os olhos voltados para a Câmara Municipal.
No fim das contas, o que se vê não é o improviso de um estreante, mas o cálculo de quem conhece o tempo da política. Igor Dias não se apresenta como ruptura, mas como construção. Não é um aventureiro, é, antes, um profissional do jogo, daqueles que sabem que, em Montes Claros, o poder não se conquista apenas nas urnas, mas na paciência de saber quando avançar e quando esperar.